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CONTRA O ÓBVIO

Selvagens à Procura de Lei – “Y”: entre rupturas, recomeços e distorções

Depois de lavar a roupa suja em público, trocar farpas em notas oficiais e redes sociais, os Selvagens à Procura de Lei reaparecem com “Y”, seu disco mais direto, pesado e sincero até agora. O álbum, que marca o início de uma nova fase da banda cearense, é também um acerto de contas com o passado recente — e um convite sem rodeios para seguir adiante, com novas feridas e novas guitarras.

Da formação original, restou apenas Gabriel Aragão, que carrega nas costas (e nas cordas) a missão de reconstruir o grupo. E ele faz isso com sangue nos olhos. O título “Y” aponta para a bifurcação inevitável: a separação de caminhos entre ex-integrantes, a crise pública que abalou o grupo e a decisão de continuar — ainda que por outra trilha, mais barulhenta e cheia de espinhos.

As músicas não escondem o ressentimento, mas também não se afogam nele. “Amigo por interesse” é um recado direto, com letras afiadas que não deixam dúvidas sobre os alvos. Mas há também espaço para o renascimento, como em “Pra Recomeçar”, quando Gabriel canta:

“É hora de se reinventar / Eu não sei por onde vou, mas vou tentar.”

É um momento de honestidade brutal, com a banda tirando força do próprio abalo.

Já em “Daqui pra Frente”, o tom é de amadurecimento — quase como uma carta aberta aos que ficaram e aos que partiram:

“Deixa eu seguir, que é pra não desistir / Eu já não sou mais quem fui.”

E é esse o espírito que atravessa o disco inteiro. A grande virada está no peso das guitarras. “Y” é, sem dúvida, o disco mais roqueiro e distorcido dos Selvagens até agora. As harmonias continuam sofisticadas, os arranjos bem cuidados — mas o clima é outro. Há mais urgência, mais sujeira e mais corpo. O indie-pop ensolarado de outros tempos dá lugar a um rock mais encorpado, com riffs densos e climões carregados.

“Y” pode não agradar quem esperava o mesmo frescor radiofônico de “Praieiro” ou o lirismo de “Passeio”, mas conquista justamente por não tentar repetir fórmulas. É um disco que não finge: sabe de onde veio, entende as perdas, aceita o conflito e segue com os olhos fixos na próxima curva.

Se vai ser o recomeço que Gabriel imaginou ou um capítulo de resistência no fim de uma era, só o tempo vai dizer. Por enquanto, “Y” soa como uma resposta — alta, distorcida e bem consciente de onde pisa.